Certo dia destes eu estava “zapiando” alguns canais de TV, nestas minhas férias providenciais, quando me deparei com um canal, não muito conhecido na TV a cabo, onde um religioso alegava ser de uma religião diferente de todas as demais no mundo, pasmem! Alguma coisa relacionada aos Templários, ou algo parecido.
Fiquei interessado pelo discurso. Não que fosse algo novo, pois sempre que alguém pretende fundar uma “nova” religião normalmente acha que esta reinventando a roda. O que me interessou foi muito mais qual o estilo “novo” que ele empregaria para esta sua nova religião.
Depois de alguns minutos ouvindo o tal sujeito, não tive dúvidas, era mais um que acha que vai melhorar a imagem religiosa cristã pintando as paredes com cores diferentes. Isto mesmo!
Analogamente comparo a alguns dias das minhas férias que tirei para pintar a minha casa, por dentro e por fora. E, modéstia parte, o fiz muito bem. A casa parece novinha em folha, ficou ótima. Mas não é porque a pintei que ela é “outra” casa. Apenas mudei sua aparência, o que é muito importante. Mas em se tratando de espiritualidade, a aparência não pode ser o mais importante. Não mudamos para melhor só porque damos uma roupagem nova para aquilo que cremos. E é isto o que tem acontecido. Aliás, este tipo de coisa existe desde que mundo é mundo. É sempre mais fácil dar uma roupagem nova do que de fato mudar.
Ainda usando a metáfora da casa; caso eu quisesse uma casa realmente diferente, eu teria que derrubá-la e refazê-la por completo. Foi este o exemplo que Cristo nos deu quando disse que derrubaria o Templo e em três dias o reergueria. Coisa que os judeus de sua época não compreenderam. Cristo não estava preocupado com a igreja de pedra, as construções religiosas. O que ele queria dizer é que nós, como seres humanos, é que deveríamos mudar, sermos reconstruídos, e isto só seria possível em sua morte e ressurreição, na busca de sua bendita pessoa santa.
O que temos cada vez mais aqui no Brasil é a aceitação evangélica como religião da moda. Uma religião que passou ser aceita comercialmente e politicamente. E o problema de ser aceita por estas duas instâncias é que a preocupação de ambas nunca é com a mudança real, mas apenas como a “pintura das paredes da casa”. O interesse destas não é pelos seres humanos enquanto tal, mas o que eles podem oferecer financeiramente e como poder político. A maioria das religiões, assim como a evangélica, não possui preocupação real com o ser humano, mas com aquilo que eles podem oferecer para o seu crescimento institucional. Pode perceber que em uma reunião entre religiosos falarão mais sobre coisas do que sobre pessoas. Eles sempre encararão que a igreja possui um enorme problema se ela não cresce quantitativamente, enquanto qualitativamente sempre será secundário; ou seja, as discussões estão sempre em torno de superficialidades. E mesmo quando nos deparamos com religiosos sinceros, com interesses genuínos, ainda assim estão sempre utilizando os mesmos caminhos errados dos demais, isto porque aprenderam errado. Acham que melhoram a vida das pessoas quando superficialmente lhes oferecem paliativos. E assim suas religiões crescem, quando crescem, quantitativamente. São religiosos despreparados, fracos, mirrados, limitados; e pior de tudo, pouco se esforçam para melhorar, para crescerem. Adoram citar e falar de grandes homens que caminharam pela Terra, mas eles mesmos não sonham em fazer parte deste grupo, eles mesmos não demonstram interesse em se tornarem assim também. Fazem de suas tarefas espirituais rituais, até mesmo profissões, menos um estilo de vida, um modo de ser, um destino a cumprir.
E as igrejas continuam embarcando nesta, com seus discursos insossos, repetitivos, rasos, com emocionalismo de novela das oito, inventando sempre “coisas” para manter seus religiosos entretidos, quando não estão fazendo os outros rirem estilo stand up, os fazem chorar por qualquer bobagem melancólica psicológica em púlpito; quando não aplaudindo ídolos gospel, forçando sorrisos enferrujados, nos fazendo orar mecanicamente, profetizar coisas que nem nós mesmos acreditamos, repetir frases prontas, inventar comportamentos quase que infantilizados, até nos fazem idolatrar-nos como se fôssemos pessoas melhores do que outros que não participam de nossas religiões, quando isto é uma mentira: pessoas não-religiosas ou de diferentes religiões muitas vezes manifestam comportamento muito mais ético e moral do que o nosso.
Então onde está o problema? Simples, apesar de não ser fácil: é que continuamos a “pintar paredes”! Não nos permitem viver a fé genuinamente, antes nos fazem agir apenas psicologicamente nos “convencendo” que estamos melhorando quando na verdade estamos estagnados. Pintando e pintando paredes, mas paredes velhas, rachadas, úmidas, esburacadas.
Em seus discursos apresentam uma lista de coisas pecaminosas que os “ímpios” praticam, mas não tocam no assunto que a resignação, a negligência, a manipulação e acima de tudo o “não fazer o bem que se sabe”, é muito pior do que qualquer lista destas; pois são comportamentos daqueles que alegam “conhecer” a Verdade, mas não a praticam com excelência. O nome de Cristo vira apenas “carimbo” de final de frase pronta. As orações se tornam mantras ou frases aguadas, os milagres são travestidos de mandingas, as promessas bíblicas se tornam crendices ou fé na “sorte”, a ideia de Deus quase que vira história da Carochinha. Mas ainda assim conseguem reunir centenas de pessoas em seus templos para encherem-nas de bobagem e depois mandar todas de volta para suas vidas cotidianas semanais sem conteúdo real de cristianismo, até que o próximo final de semana volte e todos possam se “alegrar” mais um pouco. É quase comparado aqueles que esperam ardorosamente ir passear no shoping ou curtir um final de semana da praia, ou seja, passeiam, se divertem descarregam suas emoções e depois retornam para suas vidas banais capitalizadas. É isto o cristianismo? Uma repetição de comportamentos emocionais sem sentido, que querem sempre mais e mais?
Queremos ir pelo caminho mais fácil. Não queremos encarar o fato de que a religião evangélica está em falência, assim como qualquer outra religião. Não queremos encarar o fato de que Cristo não compactua com este discurso religioso que empregamos há anos no Brasil com status de gospel. Não admitimos o fato de que melhorar a música, o ambiente, colocar cadeiras limpas, recepcionistas sorrindo, discursos motivacionais; não são necessariamente sinônimo de cristianismo. Fazemos política nos bastidores, conchavos, nos submetemos a convenções, assembleias, partidos, amigos, menos a Cristo. Não enfrentamos cara a cara os arrogantes, os prepotentes, os religiosos nojentos e frescos que acham que mandam em igreja por terem poder, dinheiro ou influência; nos submetemos às mazelas das donas “Marias” só porque elas ameaçam sair de nossas igrejas, aguentamos os filhos mal educados de religiosos que entregam seus altos dízimos. Não enfrentamos líderes que se auto-fazem, quando mais atrapalham do que ajudam. Pagamos para alguns exercerem cargos em igrejas, quando outros que nem remunerados são o fazem muito melhor. Desperdiçamos tempo com alguns que querem apenas afagos e batemos forte em muitos que apenas querem servir, ainda que de forma errada. Damos autoridade para quem sabe falar alto, mas ignoramos aqueles que falando baixo, são genuínos. Colocamos centenas pela portas da frente e perdemos muito mais pelas portas do fundo, um tipo de rodízio frenético de pessoas na igreja que aquele que chamávamos de Pedro hoje já se tornou o João, porque o Pedro já não está mais lá. Cantamos Família, mas vivemos como colegas de botequim. Isto porque Família assume todos os riscos para o resto da vida, enquanto colegas de botequim apenas querem se divertir de dar gargalhadas aos fins de semana.
Onde é que nós chegamos? E será que continuaremos mentindo para nós mesmos? Até quando? – “Louco, o que dará quando lhe pedir alma”?
Poucos são os que estão dispostos a encarar esta realidade. E estes, com certeza, não são os que farão mais sucesso, terão mais seguidores, terão os melhores carros e casas, serão os mais bem vistos. Ninguém quer estar perto destes, pois estes são chamados de “profetas do Apocalipse”, quando na verdade João Batista foi o primeiro a revelar tais coisas antes da vinda de Cristo na primeira parousia. E seguindo o exemplo de Cristo que: todas as vezes que Cristo falava a verdade cara a cara a seus seguidores, poucos o continuavam seguindo. Pois para seguir a Verdade é preciso encarar a própria mentira. A verdade sempre é nua e crua, é dolorida, vai profundo na ferida, não faz média nem rodeios. E os homens por excelência fogem destas coisas, inclusive eu! É por isso que devemos nos encarar no espelho sempre e admitir nossa mediocridade religiosa, para só então, quem sabe, voltarmos ao caminho correto.
Cristo é muito mais do que tudo isto que praticamos semanalmente, está muito além destes nossos discursos fajutos, destas nossas mandingas evangélicas, destes nossos rituais pragmáticos, dos nossos interesses mesquinhos de vivermos uma vida de luxo, arrogância e riqueza. E ainda bem que Cristo está acima de tudo isto, pois é exatamente este o motivo pelo qual o continuo seguindo, ao meu modo, ao meu estilo.
Continuarei pintando paredes, mas as paredes bem construídas. Espero!
Fabiano Mina

Não basta pintar as paredes com cores diferentes!
Realmente do que vale a pintura por fora e por dentro se as paredes não são fortes,mas importante que as paredes e a casa são as pessoas que residem nela.
“Não sabei vós que sois templo de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós é santo” (1 Co 3.16, 17).
Obrigado Ismaelita pelo comentário.
Boa análise, parabéns!
Valeu Nonato! E melhoras para a Pri!
Como diz Mateus 23.27 sobre os sepulcros caiados.
que por dentro continua cheio de ossos mortos e imundícia.
e olha que eu entendo um pouco de pintura hein Fabiano!
rsrsrsrs
Hehehe, realmente você entende, abçs Esdras!