Debate cristão? Onde?

16 nov

Neste último domingo, dia 14/11, tive a (in)feliz oportunidade de ver na emissora Record, em rede nacional, no programa Domingo Espetacular, um programa que criticava o movimento neo-pentecostal do “cair no espírito”.

Nesta programação foi mostrado vários vídeos feitos em igrejas (neo)pentecostais brasileiras e internacionais, onde era possível ver diversas manifestações deste movimento citado, inclusive mostrando um vídeo onde a famosa cantora gospel Ana Paula Valadão também adere a este movimento em sua igreja em Belo Horizonte (sabedores que tanto Ana Paula como muitos outros ministros de louvor nas igrejas chamadas “históricas” já aderiram a estes movimentos há anos).

No programa apresentado havia um ex-pastor deste movimento da conhecida Igreja de Toronto (antes conhecida como Igreja do Aeroporto, hoje com o nome Catch the Fire Toronto), que fez a denuncia para a Rede Record, alegando que é um movimento falso, manipulador, visando exclusivamente enganar os fiéis para benefício próprio de seus propagadores. Movimento que já possui diversas críticas teológicas antes mesmo do Edir Macedo pensar sobre este assunto. O que levanta suspeitas do porque do interesse dele sobre este assunto só agora.

Como não poderia ser diferente, alguns líderes evangélicos da ala (neo)pentecostal já se manifestaram, e obviamente não poderia ser diferente, o pastor Silas Malafaia foi um dos que sai na frente em “defesa” deste movimento. Obviamente porque as igrejas pentecostais assembléias, com suas várias vertentes (no caso do Silas, a Assembléia Vitória em Cristo), também possuem algumas práticas parecidas (sem fazer aqui nenhum julgamento de valor, pois o tema que trago não é este).  Muitos que criticam estes movimentos possuem em sua teologia pessoal, a respeito dos dons espirituais, a “mesma” base teológica,  o que torna incoerente tais críticas.

Para quem não conhece este movimento do “cair no espírito”, basta fazer uma pesquisa no Youtube.com e poderá ver várias reportagens relacionadas. Mas o que foi demonstrado na Record não era apenas este movimento, mas também todas as manifestações físico-corporais que são praticadas nas igrejas pentecostais de um modo geral. Desde gritos, rodopios, saltos, imitações de animais, quedas no chão, movimentos de cabeça, membros, choros, etc. Para aqueles que já tiveram a oportunidade de conhecer as igrejas evangélicas (neo)pentecostais, sabem que não há novidade nestas críticas, e que tais manifestações são antiquíssimas; e motivo de críticas teológicas das mais diversas denominações cristãs, principalmente as históricas. É possível ver o vídeo da reportagem no site da emissora Record.

É sabido que há uma discussão teológica há anos a respeito destas manifestações, principalmente quando o movimento se propagou nos EUA no início da década de XX, quando igrejas norte americanas aderiram ao movimento chamado pentecostal. No Brasil este movimento se propagou pelas igrejas Congregação Cristã do Brasil e Assembléia de Deus, por missionários italianos e suecos, vindos dos EUA; e já no final do século XX propagado pelas igrejas neo-pentecostais norte-americanas. Já no início de século XXI várias igrejas evangélicas no Brasil já manifestavam movimentos iguais ou parecidos.

Mas o que quero observar é que estes líderes, que vez outra colocam em suas programações críticas uns contra os outros, são de fato representantes legítimos do Evangelho de Cristo no Brasil? Eles de fato são aqueles que deveríamos atender, dando ouvidos à Verdade divina? São eles os melhores propagadores das Escrituras, dos ensinamentos cristãos, da vida dos discípulos de Cristo? Na minha humilde opinião não!

Vi todo o programa na íntegra, da Rede Record, a respeito deste movimento, e foi uma crítica muito superficial, de mau gosto e com propósito no mínimo duvidoso. Digo isto porque a IURD ao lançar tais críticas deveria ser uma igreja que preza pela sã doutrina, por uma boa teologia, por uma auto-crítica, por lisura, etc., coisas que não são o seu forte. As críticas que foram apresentadas em seu programa são tão ruins que voltam-se contra ela mesma. Pois sua principal alegação é de que tais práticas são manipulativas, falsas e anti-bíblicas. Me surpreendi com esta posição do Macedo, pois quem diria a IURD fazer tal tipo de crítica a um determinado movimento evangélico, sendo que ela é exatamente a que mais recebe críticas neste sentido(!).

Do outro lado, vi o Sr. Sila Malafaia sair em defesa deste movimento no seu twitter-can e blog. Este sr. nem preciso dizer o quanto é incoerente, pois nunca vi um pastor que faz tantas críticas abertas a determinados movimentos, se ele mesmo o que mais adere aos movimentos que critica quando lhe convém. Não! Não sou contra uma pessoa voltar atrás em suas decisões, posicionamentos, ponto de vista. Eu mesmo fiz e faço isto diversas vezes em minha vida. O que me intriga é sempre o Silas, ao mudar sua posição com o passar do tempo, dar o ar de quem sempre teve um mesmo pensamento a respeito daquilo que antes criticava, e que todos que pensam o contrário, do que ele antes pensava, torna-se  um bando de imbecis, débeis, e até mesmo demoniados. Ou seja, ele critica, depois muda de opinião sobre o que criticava, passa então a elogiar o que antes criticava, e os que pensam como ele antes elogiava, mas agora critica, passam ser chamados de idiotas por ele.

O sr. Silas Malafaia tem a capacidade de criticar ou elogiar sempre que lhe convém. Basta dar uma pesquisada em suas “mudanças” teológicas ao longo de sua trajetória ministerial e irão me entender melhor. Isto sem falar que Silas Malafaia realmente se acha o “Paladino” dos evangélicos. Ele realmente acha que conhece mais ou entende mais de tudo do que todos. Na sua própria crítica ao Edir Macedo ele disse que o Macedo e sua trupe nada sabe de teologia, muito menos de expulsão de demônios. Ouvindo as palavras do Silas Malafaia, inclusive fazendo citações bíblicas fracas e superficiais para sustentar o tal movimento do “cair no espírito”, mostra exatamente o quanto ele também é fraco nos argumentos. Ressalvo um em que ele diz que o “Espírito faz o que quer com quem quer aonde quer”. Eu acredito que um cristão lúcido não discordaria disto. Mas devemos separar as coisas: uma coisa é dizer que o Espírito faz o que quer, e faz mesmo! Outra coisa é dizer que aquilo que o Espírito quer e “quis” fazer ele já não nos deixou registrado (Bíblia) para que pudéssemos identificar quando é Ele (Espírito) e quando são apenas manifestações falsas (seja da parte que for).

Este tipo de argumento que o Silas Malafaia é tão ruim, que ele mesmo não percebe que ao mesmo tempo que ele o utiliza para criticar o Edir Macedo, ele legitima as práticas na IURD. Pois se o Espírito faz o que quer e não podemos identificar ou discernir, então tudo o que o Edir Macedo promove em sua igreja tem o MESMO valor que o “cair no espírito” que o Silas Malafaia sai em defesa. Se tudo o que for estranho, duvidoso, de mau gosto, puder ser embasado com o argumento de que o “Espírito faz o que quer”, então TUDO é permitido ser feito nas igrejas com o mesmo argumento. Percebem o quão fraco e ao mesmo tempo perigoso é este tipo de argumento? Não sr. Silas, não podemos respaldar práticas sejam quais forem nas igrejas assim. Ele também utilizou os velhos e conhecidos versículos para justificas tais manifestações na Igreja. Mas são exatamente os velhos versículos isolados, fora de contextos e que ele sem nenhum critérios os utiliza para perpetuar determinada manifestação em determinado momento histórico da Igreja de Atos, sem atentar para tantas outras manifestações, encontradas no mesmo livro sem NUNCA terem sido vistas, repetidas e muito menos endossadas como práticas para os dias atuais. Como eu disse: ele sempre defende o que lhe convém.

Ele ainda tem a empáfia de defender o “famoso” pastor americano Benny Hinn. Para quem não sabe o Benny Hinn foi ou é tão criticado por suas “manipulações” espirituais como o Edir Macedo o é aqui no Brasil. Engraçado que o Silas Malafaia o defende exatamente porque ele mesmo admitiu no programa ter ido a esta determinada Igreja de Toronto e participado de uma das reuniões feitas por este pastor Benny Hinn; inclusive ministrando sobre este “cair no espírito”. O mais engraçado é que o Silas Malafaia justifica o motivo pelo qual ele mesmo não teria “caído no espírito”, enquanto, segundo ele, 95% das igreja teria caído, isto porque ele não estava na “direção da mão do pastor” Benny Hinn quando este havia gesticulado com a mão para todos caírem. Calma aí! Mas não foi ele mesmo quem defendeu que o Espírito faz o que quer como quer onde quer? O Espírito só derruba aqueles que estiveram na direção da mão de uma pastor? Que desculpa mais esfarrapada a esta? E para dar o ar de que é um pastor “lúcido”, ele tenta ser político. Diz  que ele mesmo nunca defendeu ou incentivou tal prática do “cair no espírito”. Oras! Mas se é o Espírito como ele defende, então porque não deveria incentivar, sendo que ele mesmo foi até Toronto exatamente para participar de tal manifestação? Querem mais incoerência do que isto?

Tem mais! O pior ainda é ver que o Silas Malafaia sai em defesa da Ana Paula Valadão, depois de ter brigado “públicamente” com ela, por notas em twitter e site pessoal (os dois),  tentando amenizar as críticas que ele mesmo fez a ela, diferenciando o que seria uma “desavença” com a cantora gospel, que ele teve, de uma “acusação” que o Edir Macedo teria feito ao alegar que este tipo de manifestação do “cair no espírito” da qual a cantora participou seria coisa de demoniado. Ah ta! Então quando é o Silas é desavença, e quando é o Edir Macedo é acusação?

Bom… já que estes dois senhores se acham no direito de alertar os “pobres coitados” do povo evangélico brasileiro a respeito das supostas manobras diabólicas que o diabo tem feito, eu me sinto no direito de respondê-los:

Senhores, vocês NÃO SÃO representantes do povo cristão no Brasil. E não me interessa se vocês são salvos, se são de Deus, se conhecem a Cristo; sinceramente isto não me interessa! O fato é que a doutrina e a fala de vocês não correspondem ao que grande parte dos cristãos, como no meu caso, pensam a respeito da Bíblia, da fé e de Cristo. Muito pelo contrário, em grande parte das vezes vocês trazem problemas para nós.

Não senhor Silas Malafaia, sua suposta apologia à fé cristã não nos agrada. Não nos sentimos defendidos por você, pode até ser que seus seguidores se sintam (tenho lá minhas dúvidas), mas não somos todos. Sua empáfia, seu linguajar, sua fraca teologia, sua indecisão doutrinária, suas brigas públicas, não nos dizem respeito. E pior ainda é quando você se auto-intitula defensor dos cristãos brasileiros ou da fé cristã. É aí que a “vaca vai pro brejo”; pois infelizmente muitos acabam nos identificando como sendo compactuantes dos seus pensamentos, quando na verdade NÃO SOMOS.

O mesmo digo ao senhor Edir Macedo. Antes mesmos de você pensar em abrir uma igreja, já existiam cristãos devotos que já lutavam contra práticas parecidas contra estes “modismos” espiritualistas. E digo mais: muitos lutam contra modismos das sua próprias denominação.

Não! Não são todos que concordam com sua postura senhor Edir Macedo, aliás, diria que uma parcela mínima de cristãos concordaria. A IURD não é uma igreja que deva ser catalogada como igreja cristã para muitos de nós, no máximo uma igreja católica travestida de evangélica. Posso até aceitar como evangélica,  mas cristã jamais – e alerto, estou falando da instituição e não dos que a frequentam. Não me cabe tal julgamento de quem é ou não cristão.

Mas quero ir além destes dois senhores. Esta visão superficial, práticas parecidas ou justificadas da mesma forma; manipulações, pirotecnia, emocionalismo barato, interesse político ou financeiro, pregações de mau gosto, músicas gospel superficial, modinha evangélica, teologia barata, escolas bíblicas de desinteressados, cultos massificantes, membros idólatras, e muito mais. Tudo isto JÁ ESTÁ DENTRO DAS NOSSAS IGREJAS. E “pior cego é aquele que não quer ver”.

Debate cristão? Onde? Me diga onde existe de fato, com cristãos de fato, com teologia de fato, com pregação de fato, com sabedoria e discernimento de fato. Me digam… farei questão de ir até lá e aprender um pouco mais.

Fabiano Mina

2 Respostas para “Debate cristão? Onde?”

  1. Hilda 2 02UTC dezembro 02UTC 2011 às 15:45 #

    Me passa a impressão que o sermão dado por Jesus em um monte, registrado por Mateus no capítulo 5 até o versículo 12, tem sido muitas vezes mal interpretado, ora por quem usa desse sermão, ora por quem não o identifica. Não sei de que lado estão ambos os nomes que você cita no texto [Edi Macedo e Silas Malafaia], pois Deus é o único dotado da unisciência para saber, mas sabe-se que cada um usa de seus meios para difundir a palavra de Deus (se para benefício próprio ou não, não há como saber). Assisti o vídeo que vc citou e confesso que apesar de ter consciência dessas práticas pelo mundo, eu me surpreendi, pois não faz parte da minha realidade. Mas como também sei que os bastidores não representam as imagens transmitidas (em todos os sentidos e setores), essa matéria pode ter um propósito que não seja exatamente o que pareceu (denunciar algumas práticas religiosas), ou não. O que ocorre de fato é que muitos estão usando a Palavra de Deus para benefício próprio, e é aí que mora o problema. Esse movimento ‘cair no espírito’ é um bom exemplo disso, onde, líderes conhecedores da Palavra e conhecedores de pessoas usam dessas práticas para ganhar vantagens religiosas e financeiras. Quando alguém está com depressão ela se torna muito vulnerável, também um presidiário, um solitário etc, e não precisa nem ser muito conhecedor do ser humano para saber disso, imagina quem se dedica a estudá-lo? Pode fazer o que quiser com seu conhecimento não é mesmo!? Como resposta, vemos igrejas e mais igrejas sendo fundadas todos os dias, com linhagens distintas e multidões convertendo-se a elas. Apesar de a Bíblia Sagrada continuar imutável (em seu sentido real), as práticas religiosas estão cada vez mais variáveis do que nunca.
    Quando cito que as pessoas vulneráveis são as mais ‘buscadas’, não defendo parar de falar de Deus para elas, afinal, elas precisam mesmo serem curadas, assim como quem não possui problema aparente, a cura é geral, e Jesus deu o poder de cura às pessoas. O que digo é que Jesus é a própria cura em Espírito. O abuso dessa ‘forma’ de cura está cegando as pessoas para não enxergarem a verdadeira cura: A Fé. Falando agora me lembrei do capítulo da mulher que tinha uma enfermidade no sangue ja havia anos e médico nenhum a curava (Marcos 5: 21 em diante). Trazendo para os dias de hoje essa passagem, a atitude da fé verdadeira e o amor ao nosso Deus, acima de todas as cosias, (o toque na veste de Jesus) ja nos liberta do mal, nos salva. Uma atitude de fé a salvou. Não preciso me jogar no chão para isso. O que falta nisso tudo é a Fé Verdadeira. Se esta te fazer chorar, se jogar no chão, pular, que bom! não importa, o que importa é que não tinha nenhum líder que se diz ‘espiritual’ por trás enfregando um terno suado no meu rosto, e sim D..E..u..s.. Hmmm hum.. Quando colocamos todas as outras coisas acima de Deus deixamos de tocar em suas vestes. Quantas vezes eu o fiz e sofri. Não sei quantas vezes o farei ainda, o que eu sei é que devo sempre procurar Jesus para tocar em suas vestes.

    Obrigada por sua reflexão,
    A Paz de Deus.
    Hilda

  2. IBGJOVEM 11 11UTC janeiro 11UTC 2012 às 18:15 #

    Obrigado Hilda, abraços!
    Fabiano Mina

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